01 ago

Causos da nossa terra “UM ROSTO DESFIGURADO NO MORRO DA CRUZ”

Urussuhy sempre foi um município muito hospitaleiro. Certa vez chegou à cidade, um rapaz, já de meia idade, que atendia pelo nome de José. Quando insistiam muito, dizia ser José Clemente. Ele tinha cabelos grisalhos e alongados(ruivos de poeira), olhos escuros, nariz disforme, dentes brancos e sadios, um rosto um tanto magricelo e surrado pelo tempo e o sofrimento, que parecia aumentar sua idade; barba por fazer, pele amarelada e um olhar desfocado. Em um dos dedos da mão esquerda portava um anel já descorado pelo uso, que dizia ser herança de sua avó materna. E esta, no relato de José, faleceu de tristeza vendo sua pequena criação morrer de sede e de fome. José trazia uma ferida na perna direita e caminhava com dificuldade. Dizia ser “ferida brava”.
José estava acometido de uma doença não fácil de ser curada. E, em Urussuhy, ele não tinha residência nem tampouco parentes. Vinha de um lugar incerto e buscava um ambiente para viver com mais tranquilidade e curar suas chagas.
Depois de muito andar pela cidade, foi acolhido por uma mulher que “tinha vida livre” e morava sozinha. Gertrudes era o nome dela. Só que ela “tinha um caso” com um homem por nome Sebastião. Sebastião não se sabe das quantas.
Por vários meses, ela ficou, atentamente, cuidando do rapaz doente à medida do possível. Dava moradia, remédio e alimentação. Sempre buscava alternativas na medicina popular à base de ervas para cura do rapaz. Ela cuidava de tudo. Ele era para ficar no repouso enquanto saravam suas chagas. Depois de algum tempo, quando ficou curado, disse para Gertrudes:
¬ –Agradeço por tudo que você me fez. Não tenho dinheiro para pagar as despesas. Agradeço de coração! Se não fosse a senhora, não sei o que seria de mim!
––Não se preocupe. Disse Gertrudes num sorriso curto de canto de boca.
Por algum tempo, ele ficou a fitar o rosto arredondado e lábios carnudos da mulher que dizia ter vinte e oito anos; e, quase num balbucio, disse:
––Só tem um meio para que eu possa retribuir tudo o que você fez comigo. Caso com você e vamos embora daqui. Isto, é claro, se for da sua vontade. Vamos para um lugar muito distante. Farei de você uma mulher muito feliz.
Ela ficou calada e pensativa. Depois de algumas horas, ainda surpreendida pelo pedido, foi contar tudo ao homem de quem ela gostava. Ao ouvir o relato da amante, Sebastião resmungou num quase rosnado doentio, depois chutou uma cadeira que estava à sua frente, buscou assento num banco de madeira e ficou a olhar para a mulher. Depois abaixou a face e, dizendo que ia tomar uma cachaça benzida, seguiu para a beira rio.
No dia seguinte, às dezoito horas, Sebastião foi à residência de Gertrudes; chegando lá, entrou sem fazer barulho e encontrou os dois conversando na cozinha, enquanto saboreavam um café. Sebastião, tomado pelo ciúme, pegou uma “mão de pilão” e, sem dizer palavras, esmagou a cabeça do rapaz. Depois desencadeou uma sessão de chutes no corpo da vítima. Este soltou um penoso gemido e caiu sem vida. A mulher ficou assustada com a brutalidade da cena e foi ameaçada pelo amante caso ela contasse alguma coisa.
Em seguida, quando já era noite, ele meteu o corpo do rapaz em sacos e o transportou para o alto do Morro da Cruz. Chegando lá, para que ninguém conhecesse o rapaz, lançou mão de uma faca peixeira e tirou a pele da face de José, deixando-o, totalmente desfigurado. Em seguida abandou o local.
Passado dois dias, um rapaz andando pelo Morro da Cruz, percebeu que os urubus se concentravam num determinado local. Ao se aproximar, ficou transtornado pelo pavor ao perceber que se tratava de um homem morto. Morro abaixo, o rapaz voltou correndo e, ao chegar em casa, caiu desmaiado e sem voz numa calçada. Ninguém entendia o que teria acontecido com o rapaz. Ao voltar a si, gaguejando, contou o que viu. Muitas pessoas seguiram para o local; a polícia também foi chamada. O corpo estava num ambiente de difícil acesso. Até o criminoso resolveu aparecer por lá e ainda dar dicas de como chegar ao local com mais facilidade. Quando o delinquente se aproximou, começou a jorrar sangue dos poros da vítima. A polícia percebendo isto, deu voz de prisão ao meliante. Ali mesmo, Sebastião começou a ser açoitado pela polícia. Foi uma sequência de castigos até chegar à delegacia. Ali, a amante foi intimada e contou o ocorrido em sua residência e a ameaça que sofrera.
Ele ficou preso por dezenas de anos. A partir daí, passou a ser chamado de “Sebastião Preso”. Ainda hoje, o local no Morro da Cruz onde foi deixado o corpo recebe visitas de populares.

Anchieta Santana
Uruçuí-PI

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