02 jan

HISTÓRIAS E TRADIÇÕES DO MORRO DA CRUZ

Desde meus primeiros contatos com a cidade de Uruçuí, final da década de setenta, já ouvia histórias diversas ambientas no seio do Morro da Cruz, principalmente por conta da saudosa Maria Laura, seus cachorros e sua toca. Mas, também, outros relatos de aventuras por conta de um Cruzeiro eram ouvidos. Mas, entre os uruçuienses de mais idade a convivência com o Morro da Cruz vem de outras datas.
No princípio, a cidade de Uruçuí era ambientada apenas na beira rio Parnaíba; e, por esta razão o Morro da Cruz não fazia parte da cidade. Só na década de trinta é que a zona urbana começa a crescer e avança rumo ao morro. Mas, mesmo ainda não sendo parte física da zona urbana, o morro já era, por várias razões, bastante visitado. Uma grande cruz de madeira posta no ponto mais alto do morro era o motivo maior para as visitas.
Em tese, o morro só passa a ser notado enquanto formação importante para os munícipes, quando o comerciante Cândido José de Carvalho, ainda na primeira década da emancipação política municipal, teve a ideia de edificar, na parte mais alta do morro, uma cruz de madeira de tamanho significativo. Uma forte representação simbólica da fé cristã que recebeu apoio e contribuições da comunidade. Isto num tempo em que apenas o catolicismo era difundido no município.
Após a edificação do cruzeiro, aquele que era apenas um simples morro, foi batizado como o nome de Morro da Cruz. Desde então, as visitas ao local, apesar do acesso não muito fácil, foram intensificadas.
Conforme afirma o escritor José Patrício Franco, em sua obra “Uruçuí: sua história, sua gente”,
“A cruz plantada numa pequena esplanada, um pedestal natural, estava no ponto mais alto e mais bonito. Dali se descortinava o mais belo panorama da cidade. A foz do rio Balsas, no lugar denominado Forquilha, início da chamada Ilha do Balsas, era vista perfeitamente bem, e se alongando mais a vista, se ia descobrir a volta do rio, ao sul e ao norte da cidade.”
Ainda segundo Franco, no Morro da Cruz, em sua formação natural, era possível encontrar, dentre outros, os seguintes frutos: caju, pequi, puçá, maçaranduba e maria-preta. Além de uma infinidade de flores encantadoras. Dentre estas, a flor do alecrim que “se destacava pelo aroma que exalava”. E por esta particularidade, era colhido, organizado em feixes e colocado em exposição em diversos lares e nos lugares visíveis das igrejas. Pois, acreditava-se que o perfume do alecrim, além de perfumar o ambiente, trazia “boa sorte e tranquilidade ao lares felizes”.
Além da meninada que se aventurava no morro para colher frutos e passarinhar, tinha famílias que, ali, colhiam lenhas para o fogão e até matavam pequenas caças para o alimento diário; e, ainda, moças e rapazes que faziam seus programas de visitas ao Cruzeiro e outras aventuras.
Mas, não se pode falar do Morro da Cruz sem mencionar a toca da Maria Laura. Esta, na base do morro, encontrou um ambiente que se tornou seu refúgio do estresse da rua e do olhar social. Um espaço onde ela podia ficar apenas em companhia de seus cães e, assim, divagar em sua demência interminável. Abandonada pelas políticas públicas ela tinha uma casa(toca) para chamar de sua. Uma toca que a cidade inteira sabia onde ficava mas poucos se arriscavam em ir lá.
Um outro aspecto relacionado ao Morro da Cruz, não muito agradável, é que ali, também serviu de ambiente para ocultação de cadáver. Para lá foi levado o corpo de uma homem que, após ser morto, teve a pele da face retirada pelo assassino para evitar um possível reconhecimento. Mesmo assim, após o corpo ser encontrado por um adolescente, o criminoso foi identificado e preso. E a vítima, mesmo com o rosto mutilado, teve sua identidade revelada.
Até o final década de oitenta, o Morro da Cruz permaneceu sem a interferência do homem em sua formação natural. No máximo existiam as trilhas que as pessoas usavam para se deslocarem de um bairro ao outro. Mas, na década de noventa o morro começou a ser invadido pela sede imobiliária. Uma construção, duas construções e assim, o morro que já tinha perdido sua cruz, perdeu suas árvores, seus pássaros e sua formação original. Onde antes cantavam os passarinhos saboreando frutos, agora ouve-se gritos da meninada, buzinas de automóveis e músicas eletrônicas.
Finaliza-se afirmando que, em pouco mais de um século, o morro ficou sem sua cruz e sem os elementos naturais que foram vitimados pelo processo da gula imobiliária. E assim, a cidade invadiu morro e o morro virou bairro sem direito a marmelada, maria preta, o canto do sabiá e o aroma do alecrim.
Anchieta Santana
Escritor uruçuiense

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